GAMIFICAÇÃO DO TRABALHO E A NOVA ESTÉTICA DA SUBORDINAÇÃO ALGORÍTMICA
UMA ANÁLISE DA DOMINAÇÃO NO AMBIENTE LABORAL DIGITAL
Keywords:
Gamificação; Subordinação algorítmica; Servidão digital; Direito do Trabalho.Abstract
A rápida digitalização das relações laborais, bem como o avanço das tecnologias digitais, continuamente impõe transformações profundas na organização do trabalho e no conceito de subordinação jurídica, descentralizando o paradigma de trabalho contínuo e presencial (Fincato e Wünsch, 2020). Nesse contexto, a gamificação surge como uma estratégia de gestão que aplica elementos inspirados em jogos — como mecânicas, estética e pensamento lúdico — em ambientes organizacionais não lúdicos, com o objetivo comprovado de aumentar o engajamento e a produtividade dos colaboradores (Kapp, 2012; Angelovska e Josimovski, 2021; Singh, 2012). Consequentemente, tal técnica é matriz de uma nova estética da subordinação trabalhista, que se apresenta de maneira silenciosa, contínua e automatizada e, por sua vez, incita discussões acerca dos riscos causados pela gerência algorítmica em aspectos ocupacionais de saúde e medicina do trabalho (Cefaliello, Moore e Donoghue, 2023). À luz de Ricardo Antunes (2018), as metas impostas nesse contexto laboral estão intrinsecamente ligadas a práticas de assédio, além de erodirem a separação entre o tempo de vida no trabalho e fora dele. Estudos recentes demonstram como esse cenário pode deteriorar profundamente a saúde mental dos trabalhadores expostos, uma vez que pesquisas indicam que a percepção de controle algorítmico já é suficiente para desencadear sintomas da síndrome de burnout (Lang et al., 2023). Essa pressão por mérito e vitórias, quando não alcançadas, mina o trabalhador por dentro, consumindo sua energia emocional e física, e cristalizando uma competição interna que culmina na perda do bem‑estar psicológico (Lang et al., 2023; Antunes, 2018; Cefaliello, Moore e Donoghue, 2023). Sendo assim, o presente trabalho objetiva a analisar o fenômeno da gamificação e da subordinação algorítmica em contextos que transcendem a gig economy e a “uberização”, considerando outros ambientes de trabalho, inclusive os corporativos, como call centers, armazéns e varejo, a fim de investigar como essa nova lógica de gestão afeta a autonomia, a dignidade e a saúde mental do trabalhador. Além disso, busca-se compreender como a gamificação molda a experiência laboral e impõe um novo tipo de subordinação, mesmo fora do contexto de plataformas digitais. Como destaca Chehab (2024), recursos como insígnias e desafios “são utilizados para induzir o comportamento humano e levar à intensificação e à precarização do trabalho, subjugando o trabalhador”. Ao apresentar a dominação como estímulo meritocrático, a gamificação oculta sua face disciplinadora e opera como nova estética da servidão. Para tanto, metodologicamente adota-se a abordagem qualitativa, com revisão bibliográfica interdisciplinar e análise de autores nacionais e internacionais no que tange o Direito do Trabalho — aqui incluso os temas de tecnologia laboral —, a Sociologia e a Administração. Nesse contexto, a análise crítica de conceitos como subordinação, alteridade e de discussões recentes sobre gestão algorítmica permitirá a construção de um panorama acerca desse fenômeno, bem como a problematização da compatibilidade dessa prática com os princípios do Direito do Trabalho, sobretudo diante dos limites da Consolidação das Leis Trabalhistas e da ausência de regulamentação sobre o tema.
References
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