A ERA DA INFORMAÇÃO COMO PALCO DA NATURALIZAÇÃO DA DESIGUALDADE E DA SELETIVIDADE PENAL
Resumo
No contexto atual de rápida disseminação informacional, também marcado pelo crescimento de ferramentas digitais e expansão do que se conhece como IoT (Internet of Things, ou internet das coisas), o fenômeno das notícias falsas, ou fake news, tem suscitado debates, além de ter grande influência na percepção pública sobre diversos temas. Este trabalho tem como objetivo principal identificar e analisar o eventual impacto das notícias falsas que retratam as favelas e as populações marginalizadas de forma estigmatizada, contribuindo para o fortalecimento de estereótipos negativos e a criminalização secundária desses grupos. A criminalização secundária, manifestada a partir da investigação até o efetivo julgamento, é frequentemente marcada pela atuação e violência policial (Barata, 2002). Busca-se compreender se pode haver um aumento dessa atuação violenta como uma consequência direta da construção de narrativas que distorcem a realidade dessas comunidades, promovendo uma imagem associada predominantemente ao crime e à desordem. Dessa forma, este estudo tem como escopo, de forma introdutória, compreender como tais notícias podem fomentar o apelo da população por respostas mais violentas e repressivas do Estado, em detrimento de políticas públicas mais inclusivas e respeitosas dos direitos humanos e fundamentais (Moreira, 2010; 2015). Tal análise é feita a partir da contribuição da criminologia crítica com categorias relevantes ao tema, como a noção de homo sacer da Baixada (Carvalho, 2006; 2014). Dessa forma, por meio de uma abordagem criminológica crítica, combinando técnicas quantitativas e qualitativas (Marconi; Lakatos, 2018), o trabalho faz uso do método dedutivo para verificar se os casos concretos estudados podem se encaixar nas categorias propostas, como naturalização da desigualdade, homo sacer e criminalização secundária da periferia. Pretende-se analisar, assim, a circulação de notícias falsas e seu papel na perpetuação da violência institucionalizada (Moreira; Moreira Júnior, 2017). Em resultado preliminar, a pesquisa apontou notícias comprovadamente falsas que foram amplamente divulgadas não apenas pela população, mas por grupos e indivíduos que fizeram real uso de tais narrativas para promoção política.
Referências
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito penal. Tradução: Juarez Cirino dos Santos. 3. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2002.
CARVALHO, Thiago Fabres de. Criminologia, (in)visibilidade, reconhecimento: o controle penal da subcidadania no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2014.
CARVALHO, Thiago Fabres de. O “direito penal do inimigo” e o “direito penal do homo sacer da baixada”: exclusão e vitimação no campo penal brasileiro. Revista da Procuradoria Geral do Estado do Espírito Santo. Vitória, v. 5, n. 5, p. 209-257, 1º/2º sem. 2006.
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Metodologia do Trabalho Científico. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2018.
MOREIRA, Nelson Camatta. Fundamentos de uma Teoria da Constituição Dirigente. Santa Catarina: Conceito, 2010.
MOREIRA, Nelson Camatta. Modernidade periférica, direitos fundamentais, sub-cidadania e constitucionalismo (dirigente) adequado à realidade brasileira: Um Ensaio Preliminar. In: MOREIRA, Nelson Camatta (Org.). Teoria da Constituição: Modernidade, Identidade e (Lutas por) Reconhecimento. Ijuí: Unijuí, 2015.
MOREIRA, Nelson Camatta; MOREIRA JÚNIOR, Ronaldo Felix. Os replicantes de nosso tempo: a violência estatal e a negação da igualdade e dignidade humana a partir da perspectiva da teoria crítica e da distopia na ficção científica. Revista Brasileira de Direito, Passo Fundo, v. 13, n. 3, p. 277-294, dez. 2017. ISSN 2238-0604. Disponível em: [https://seer.imed.edu.br/index.php/revistadedireito/article/view/2033]. Acesso em: 07.09.20.